Dr. Ruy Torres Odonto
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Pés no Chão
Cá estou eu outra vez, observando um Brasil que parece insistir em transformar o absurdo em rotina.
Desta vez, meus olhos se voltam para o Ceará. Segundo notícias recentes, mais seis fábricas de calçados encerraram suas atividades no Estado. Se cada fábrica representa centenas de empregos, não se fecham apenas portões de ferro; fecham-se portas de esperança, mesas de jantar, sonhos de pais e mães de família.
E fico imaginando, com a amarga ironia que os tempos nos impõem: o que calçarão agora nossos irmãos cearenses?
Talvez improvisem sandálias de garrafas PET, amarradas com barbante, como tantas vezes o brasileiro já foi obrigado a improvisar a própria sobrevivência. Mas, pensando melhor, talvez nem garrafas PET sobrem. Então restará apenas uma alternativa: os pés no chão.
É curioso. Durante anos prometeram colocar comida na mesa do povo. Hoje, há quem comece a se preocupar se ainda haverá sapatos para chegar até essa mesa.
O drama não está apenas nas estatísticas da economia. Está no operário que chega em casa sem saber como pagará a prestação, na mãe que faz contas impossíveis para comprar o material escolar dos filhos, no jovem que via no emprego a porta de entrada para uma vida digna e agora vê apenas um cadeado enferrujado.
Empresas não desaparecem por capricho. Quando uma fábrica fecha, perde o empresário, perde o empregado, perde o comerciante da esquina, perde o caminhoneiro, perde o fornecedor e perde, sobretudo, a cidade que dependia daquela atividade. É um efeito dominó que costuma atingir primeiro os mais pobres.
Enquanto isso, os discursos continuam impecáveis. Nos palanques, tudo funciona. Nas propagandas, tudo prospera. Nos gabinetes, sempre existe uma explicação elegante para aquilo que o trabalhador sente na pele.
Mas o desempregado não vive de discursos. O pai de família não alimenta seus filhos com narrativas. A dona de casa não compra um par de sandálias com promessas.
E assim seguimos…
Há governos que medem seu sucesso pelo número de entrevistas concedidas. Outros deveriam ser medidos pelo número de portas de fábricas que permaneceram abertas.
No fim das contas, quem paga a conta nunca é quem faz os discursos. É sempre o povo.
E o povo, quando perde o emprego, perde muito mais do que o salário. Perde um pedaço da própria dignidade.
Oxalá eu esteja errado. Oxalá essas fábricas reabram suas portas e milhares de trabalhadores voltem a produzir, sustentar suas famílias e caminhar de cabeça erguida.
Porque um povo pode suportar muitas dificuldades.
Mas nenhum país prospera quando seus trabalhadores acabam… de pés no chão.
Quando um país começa a ver seu povo andando de pés no chão, talvez o problema já nem seja a falta dos sapatos.
Antes deles, já faltou o emprego.
Depois, faltou a esperança.
Mais adiante, faltou a perspectiva.
E quando um povo perde a esperança, torna-se capaz de aceitar como normal aquilo que jamais deveria aceitar.
A pobreza material ainda pode ser vencida com trabalho, investimento e oportunidade. A pobreza da esperança é muito mais cruel, porque paralisa uma nação inteira.
Um país pode sobreviver a crises econômicas. Pode superar guerras, inflação e recessões. O que nenhum país suporta por muito tempo é assistir, em silêncio, à lenta erosão da dignidade de seu povo.
Os pés descalços nunca foram apenas uma condição física.
Sempre foram um aviso.
Um aviso de que alguma coisa muito maior deixou de caminhar.
“Quando um povo perde até os sapatos, o problema já não está nos pés. Está no caminho que escolheram para a nação.”
Erre Eme
Dr. Ruy Tôrres é cirurgião-dentista atuante em Belém, Pará, e também deixou sua marca na educação como professor do tradicional Colégio Presbiteriano de Governador Valadares, em Minas Gerais. Ao longo de sua trajetória, conciliou o compromisso com o ensino e a dedicação à Odontologia, destacando-se pela competência técnica, ética profissional e atenção humanizada. Seu trabalho como educador contribuiu para a formação de diversas gerações de estudantes, enquanto sua atuação clínica em Belém consolidou sua reputação como um profissional dedicado à promoção da saúde bucal e ao bem-estar de seus pacientes.
ESCULHAMBARAM A EUROPA GLORIOSA DE OUTRORA!!
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