Humberto Júnior
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15/09/2026
Eu já fiz parte de duas igrejas durante a minha vida.
Na primeira foi a religião, lá não podia muita coisa.
Não podia beber. Não podia tr***ar antes do casamento. Não podia adorar outros deuses. Não podia discordar dos dogmas. Não podia fazer o que queria, nem como queria. Não podia pensar diferente. Se você fizesse tudo isso, estava pecando. Talvez até possuído por um demônio.
A segunda igreja foi onde comecei minha formação em psicanálise.
E, para minha surpresa, lá também não podia muita coisa.
Não podia ter Instagram. Não podia pensar diferente. Não podia aparecer muito. Não podia dividir o mesmo espaço com o analisante. Não podia passar à frente; era preciso esperar quem havia chegado primeiro. Não podia discordar dos parentes das autoridades. Não podia questionar determinadas linhagens. Não podia deixar de anunciar a própria disponibilidade para receber gente para trabalho. Não podia ver a psicanálise como trabalho. Não podia ter uma pós qualquer. Não podia ter menos de dez anos de experiência.
E havia ainda uma exigência fundamental: não falar em português. Era preciso falar em lacanês.
Sabe qual é a diferença entre a primeira e a segunda igreja?
Na primeira, o castigo por não seguir as ordens era a condenação.
Na segunda, o castigo por não seguir determinadas regras era a desautorização.
Talvez a questão não esteja nas regras. Toda comunidade precisa de referências, transmissão, princípios e diferenças. O problema começa quando determinadas referências deixam de ser discutíveis e passam a funcionar como mandamentos. Quando perguntar vira falta de respeito. Quando discordar vira desvio. Quando pensar diferente passa a exigir uma justificativa para continuar pertencendo.
14/09/2026
“Mas é assim mesmo. O campo é assim mesmo! As pessoas são assim mesmo. Elas erram como qualquer um. Em todo canto tem gente assim”.
Penso que bem pior do que a violência é justifica-la!
Faz uns dias que, em conversa com uma analista que muito admiro, falávamos sobre o campo psicanalítico, e eu encontrei ali a possibilidade de dizer a ela o quanto eu estava saturado, ofendido e ressentido com tantas coisas que já tinha vivido no sentido da violência no campo, e minha resposta era o silêncio.
E, ao final de tantos rasgos que fiz, citando nomes, descrevendo situações, chorando e perigando fazer daquele espaço uma “limpeza de chaminé”, perguntei a ela, como quem formaliza uma demanda ao campo do Outro: o que faz a gente permanecer por tanto tempo em análises que nos sucateiam, em espaços de formação que nos violentam, em escolas que, por vezes, são a atualização de um pai ausente e negligente?
Não respondendo do lugar que eu a coloquei, ela diz:
“A gente tolera muita coisa em nome da transferência. Já parou para perceber que só quem romantiza tudo isso que você citou são psicanalistas?”
Com os olhos arregalados, a garganta secou e, para continuar a conversa, precisei engolir algumas gotas d’água.
Não é a transferência, mas onde a gente permanece e o que a gente justifica em nome dela.
Foi daí que nasceu uma questão analítica: será mesmo que tudo que recebo como crítica, ofensa, perseguição é realmente só meu, ou estou justificando tudo isso em nome da transferência?
13/09/2026
Era uma vez a rainha.
Muito experiente, era rodeada de súditos, admirada por uns e odiada por outros. Ao longo da vida, acumulou muitas discórdias com aqueles que não concordavam com ela ou que ousavam pensar de maneira diferente de suas ordens.
Durante seu reinado, ouviu falar de um jovem plebeu que, por não fazer parte de nenhum reino — nem do dela, nem de outros —, era tratado como intruso. Além de ser perseguido, qualquer um que o seguisse ou compartilhasse de suas ideias também receberia o mesmo tratamento.
No castelo, havia um grande espelho que falava com a soberana, respondia às suas perguntas e reafirmava que ela era única e a mais bela do reino. Até que, certa vez, disse algo diferente: havia alguém que ameaçava seu reinado. Desde então, ela passou a procurar aquele de quem ouvira falar.
Era justamente o jovem plebeu. Ela o perseguiu, delegou sua expulsão e o castigou. Proibido de coexistir naquele território, ele fugiu para longe. Mas nem a distância foi suficiente para interromper a tormenta: ainda hoje, mensageiros são enviados para assegurar que ela continue chegando até ele.
E assim, enquanto tenta reafirmar sua posição, a rainha acaba revelando outra coisa: o quanto pode ser frágil um lugar que precisa, o tempo todo, vigiar aquilo que está fora de seus muros.
Porque aquele que ela tentou transformar em plebeu continua não ocupando esse lugar nas terras que são realmente suas.
No fim, essa história nunca foi sobre uma rainha e um plebeu. Era sobre o campo psicanalítico.
12/09/2026
Você já andou em campo minado? Pois bem, faz alguns anos que ando sobre alguns. O principal deles, curiosamente, é este: as redes sociais.
Desde o início do meu percurso, compartilho leituras, pensamentos, frases, textos e, depois, vídeos por aqui. Ao longo desses mesmos anos, escuto de alguns analistas: “não existe analista nas redes sociais”.
Fato curioso: ao mesmo tempo em que afirmam que não existe analista nas redes — e, nesse ponto, concordo —, há quem se dedique a observar, fiscalizar e julgar aquilo que essas pessoas, que deveriam ser vistas simplesmente como pessoas, postam, fazem e pensam. E, sim, a lógica do algoritmo também participa disso.
Gosto das minhas redes. Gosto de fazer laço, construir vínculos, compartilhar o que penso e também aquilo que sou. Mas, nos últimos dois anos, reduzi este perfil quase exclusivamente ao trabalho. Apareci engessado, pouco humano, pouco eu. Em boa medida, para evitar o ruído produzido por aqueles que parecem precisar encontrar um problema sempre que alguém simplesmente ocupa o espaço que deseja ocupar.
Sempre que compartilho algo que escapa um pouco desse formato, reaparece a mesma espécie de argumento: “prego que se destaca leva martelada”. E outras justificativas caminham na mesma direção. Mas não é justamente aí que aparece o paradoxo?
Se não existe analista nas redes, por que aquilo que alguém publica aqui provoca tanta preocupação? Se não estamos falando de analistas, por que há tanta vigilância sobre seus corpos, suas palavras, seus modos de aparecer, seus pensamentos e suas escolhas?
Lembro-me vivamente do quanto fui ridicularizado, durante meses, por ter compartilhado um ensaio fotográfico. Havia contexto, havia uma escolha e havia, sobretudo, uma pessoa por trás daquela imagem. Ainda assim, aquilo foi transformado em motivo de chacota.
[Continua nos comentários]
Algum tempo depois, vi algo bastante semelhante ser recebido de maneira completamente diferente quando publicado por alguém com outro lugar no campo. As mesmas coisas que, em um contexto, pareciam motivo para desautorizar, em outro, apareciam como coragem, liberdade, felicidade. Dois pesos e duas medidas?
Somos influenciados pela medicina no modo como escrevemos nossa clínica. No Désir Ateliê de Casos Clínicos, proponho tensionar essa distinção para construirmos o nosso próprio modo de escrever.
Aos interessados, a nova turma começa em outubro e estamos nas últimas vagas. O link para inscrição está na bio!
11/09/2026
Eu já fui cancelado.
Nas redes sociais, fui chamado de “analista pelado”, ridicularizado e transformado em motivo de chacota.
Em sala de aula, presencialmente, ouvi risos sarcásticos, conversas paralelas e provocações que não pareciam interessadas em discutir o conteúdo, mas em me constranger.
No campo psicanalítico local, por não seguir determinados caminhos, não compactuar com determinadas posições, não fazer lado e pensar diferente, não puxar s**o, não falar o lacanês deles.
No campo psicanalítico mais amplo, chegaram até mim recortes, acusações e fofocas a meu respeito.
E sabe o fato curioso? Eu fiz uma única coisa, e é o que continuo fazendo: trabalho.
Não vivo em rodas de fofoca, não me sento com quem não simpatizo, não sou político porque não faço questão. Falo com quem eu quero, ando com quem eu quero e não vivo destilando veneno contra ninguém.
Ainda assim, ao longo dos anos, chegaram até mim relatos de conversas, articulações e conteúdos produzidos a meu respeito com o objetivo de me descredibilizar. Algumas coisas eu vi, outras me foram contadas. Não tenho interesse em transformar este texto em uma lista de acusações, tampouco em expor pessoas.
Faz anos que suporto tudo isso calado.
E o silêncio teve um preço. Adoeci. Gastei muito em análise. Fiz o esforço de elaborar o que acontecia comigo para não transformar este espaço em lugar de resposta, disputa ou revanche.
Mas algo mudou.
Estou falando agora não para responder a cada ataque, nem para convencer ninguém sobre quem está certo. Falo porque não quero mais tratar o silêncio como única forma possível de preservar a minha tranquilidade.
Não preciso devolver aquilo que recebi. Não preciso transformar discordância em inimizado. Não preciso convencer quem já decidiu o que pensa a meu respeito.
Preciso apenas continuar fazendo aquilo que sempre fiz: trabalhar, pensar, sustentar minhas posições e seguir o meu caminho.
10/09/2026
A psicanálise não é um clube, ou, ao menos, não deveria ser. Mas o que é, então? Como chamar de campo psicanalítico aquilo que funciona à base de fofoca, disse-me-disse, indiretas em páginas diversas, ligações, prints e mensagens de voz em visualização única?
As discordâncias que minaram o campo psicanalítico desde o princípio sempre foram teóricas, intelectuais e sérias. Quando Lacan rompeu com a IPA, não se tratava de uma fofoca pessoal, mas de um embate à altura de uma potência institucional.
Mas o que acontece nestes tempos em que tudo vira like, tudo é viral e tudo se resume a números? Como não ser afetado por tantas provocações que levam o meu nome e se voltam contra mim? Embora se disfarcem de preocupação teórica e ética psicanalítica, expressam, na verdade, apenas ódio e ojeriza à minha figura.
Tudo isso chega até mim, por terceiros, mas chega. Como fazer da psicanálise uma causa quando o que nos atinge é puramente pessoal?
09/09/2026
Tenho pensado bastante sobre a formação do psicanalista e, sobretudo, sobre quem pode desautorizar um analista. Isso ganhou ainda mais peso depois de algumas situações recentes, em que chegaram aos meus ouvidos comentários de que uma determinada analista considerava a minha prática questionável.
Não me interessa discutir pessoas, tampouco expô-las — não por falta de vontade. Interessa-me discutir os discursos que aparecem quando alguém ocupa um lugar que determinado circuito considera que não deveria ocupar. Ou, mais precisamente, quando determinadas figuras se autorizam a decidir quem deveria ou não ocupar esse lugar.
Há uma diferença importante entre rigor e controle.
Entre formação e credenciamento.
Entre transmissão e reprodução.
Uma formação rigorosa não deveria precisar produzir uma fila de pessoas autorizadas e não autorizadas a falar. Tampouco deveria transformar a diferença de percursos em uma hierarquia de legitimidades.
Talvez seja justamente aí que a psicanálise tenha algo a nos ensinar sobre a nossa própria relação com a autoridade.
Porque, quando a formação deixa de sustentar uma pergunta e passa a determinar quem pode falar, quem pode ensinar, quem pode ocupar determinados lugares e quem deve ser silenciado, talvez estejamos diante de outra coisa.
Mais do que nunca, corremos o risco de fazer da psicanálise aquilo que tanto Foucault nos advertia que ela não deveria se tornar: um dispositivo de poder.
09/09/2026
Désir — Ateliê de escrita de caso clínico
Escrever um caso clínico em psicanálise não é apenas contar uma história. É produzir uma escrita capaz de fazer aparecer aquilo que, na clínica, se escuta e se elabora a partir da teoria.
O Désir nasce justamente dessa inquietação: como escrever um caso clínico em psicanálise?
Mais do que um curso tradicional, o Désir é um ateliê: um espaço de trabalho artesanal sobre a escrita clínica, em que cada participante poderá construir, revisar e sustentar sua própria produção, articulando experiência clínica e teoria psicanalítica.
Serão dois meses de trabalho, com:
• 8 encontros teóricos semanais;
• encontros de 1 hora;
• 2 encontros de orientação individual;
• terças-feiras, às 14h;
• início em 05/10.
As vagas são limitadas porque a proposta é acompanhar de perto o processo de escrita de cada participante.
Se você sente que já passou da hora de tirar o caso clínico do campo da anotação, da supervisão ou da ideia e começar a escrevê-lo, este ateliê é para você.
Turma 3 — outubro e novembro.
Informações e inscrições pelo link disponível na bio.
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