Dr. Flavio Moutinho

Dr. Flavio Moutinho

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Endocrinologia Pediátrica

29/08/2026

Agradeço à comissão organizadora do 37° Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia pela inclusão na programação de uma mesa com o tema Endocrinologia e Arte.

Agradeço também ao moderador, Dr. Erik Trovão , e os conferencistas, Dr. Dr Sergio Maeda e Dr. Ayrton Custódio Moreira, por me concederem a honra de ler para a audiência minha poesia.

O objetivo da mesa era mostrar a presença da Endocrinologia em manifestações artísticas - cinema, pintura, escultura, literatura. E esse contexto é exatamente o que define o conceito de Metabologia - Poética da Transmutação". Nas poesias que fazem parte do livro, eu uso conceitos fisiológicos e metabólicos como metáfora para as transformações da vida e do mundo.

Para a ocasião, escolhi Leitor de Poesia.

LEITOR DE POESIA

quanto de poeta
há no leitor de poesia?

aquele que lê
e se comove
e se emociona
e se reconhece na poesia

aquele que lê
e deglute estrofes
e fagocita versos
e metaboliza palavras
e transforma letras em bases nitrogenadas de seu dna

quanto de poeta
há no leitor de poesia?

uma poesia
duas poesias
três poesias depois
um livro
uma antologia
as obras completas de seu autor favorito
uma prateleira
uma estante
uma biblioteca depois
e muito de sua genética já terá sido substituída
por fragmentos de poesia

quanto de poeta
há no leitor de poesia?

pois se o poeta é fingidor,
finge tão completamente
que chega a fingir que é sua
a poesia de outra gente

26/08/2026

Parece que foi ontem.

Parece que foi ontem que a criança atravessava a serra Grajaú-Jacarepaguá durante a obra de duplicação da pista e dizia que um dia trabalharia naquele hospital.
Parece que foi ontem que o menino escolheu estudar Medicina, fazer residência em Endocrinologia, se especializar em Endocrinologia Pediátrica.
Parece que foi ontem que surgiu uma vaga de contrato temporário no serviço de Endocrinologia daquele hospital na serra.
Parece que foi ontem aquela reunião com a diretora, depois com a chefe da Pediatria, em que se deu vida ao primeiro ambulatório de Endocrinologia Pediátrica daquele hospital.
Parece que foi ontem que foi aprovado no concurso público, e substituiu o contrato temporário pelo vínculo estatutário.
Parece que foi ontem que aquele médico se pronunciou em defesa dos pacientes em uma assembleia de greve, e mais tarde, por causa da sua fala, foi convidado para ser diretor médico do hospital.

Parece que foi ontem.
É na pacientinha diabética de 13 anos que hoje tem 33 que a gente tem dimensão do que parece que foi ontem.
No pacientinho que cresceu com hormônio de crescimento e hoje encerra o serviço militar obrigatório aos 26.
No convite de casamento da pacientinha que começou o tratamento de hipotireoidismo aos 8 anos.
Na pacientinha com diabetes que foi mãe aos 17 e avó aos 34.

Obrigado a quem pôde confiar na nossa parceria ao longo desses 20 anos!
E que venham as próximas bodas!

Hospital Cardoso Fontes

13/08/2026

Meu filho não cresce.
Minha filha está se desenvolvendo muito cedo.
Meu filho ganhou muito peso.
Minha filha fez exames e estão alterados.
Meu filho é um menino trans.
Minha filha tem muita acne e o ciclo menstrual é irregular.
Meu filho tem diabetes.
Minha filha tem cálculos renais.
Meu filho tem o teste do pezinho alterado.
Minha filha tem nódulos na tireoide.

Costumava dizer aos residentes que quem escolhe Endocrinologia, tanto eles como eu, são preguiçosos. Porque a Endocrinologia só tem três tipos de problema:
- hormônios a mais;
- hormônios a menos;
- e nódulos.

Brincadeira, é claro. As situações com que o endocrinologista pediátrico lida no dia a dia são inúmeras. E cada paciente é diferente. Porque, mais do que o diagnóstico propriamente dito, importa entender como o diagnóstico vai afetar aquela pessoa específ**a; como a família vai lidar com o diagnóstico, com o tratamento e com o futuro.

Nesse 12 de agosto, parabéns a todos os colegas endocrinologistas pediátricos, que de preguiçosos não têm nada.

25/06/2026

Escrevi essa crônica há 8 anos.
Ainda não conhecia escritores haitianos, e já li dois ótimos: Dany Laferrière e Edwidge Danticat.
E, sobretudo, não sabia que o Haiti viria a se classif**ar para a Copa do Mundo e jogar contra o Brasil.

***

O HAITI NÃO É AQUI

Há pouco menos de um mês internou na Clínica Médica do Hospital Cardoso Fontes um sujeito vítima de acidente vascular cerebral isquêmico.

Provavelmente várias pessoas foram internadas no mesmo dia, vítimas da mesma doença, em vários serviços de Clínica Médica, de Neurologia, de Emergência, de Terapia Intensiva por aí afora.

Mas Jean Robert tem uma história sui generis.
Cada paciente tem uma história sui generis, é verdade, mas o fato é que de todas as histórias sui generis de todos os pacientes internados com AVC há cerca de um mês, a única que eu conheço é a de Jean Robert.

Refugiado haitiano, além do créole do seu país natal Jean Robert também fala francês, inglês, espanhol e português. Trabalha na construção civil, e recentemente foi demitido de seu último emprego.

De repente o jovem haitiano poliglota tem um AVC isquêmico e f**a afásico. Tudo o que ele fala soa como Haiti. Além da afasia, também desenvolveu paresia da metade direita do corpo. Pensei em fazê-lo se comunicar por escrita, mas é destro e não consegue segurar a caneta. Compreende bem as ordens em português, em francês, em inglês. Close your eyes, e ele fecha os olhos. Élevez le bras, e ele levanta um pouco o braço direito com dificuldade, ajuda com o esquerdo e leva uma chamada, Sans aide. Não tentei em espanhol, e não saberia tentar em créole.

Conheci Jean Robert ele já estava internado havia 3 semanas. Tinha evoluído muito bem com Fisioterapia e Fonoaudiologia.
Hoje soube que teve alta.

***

Queria saber como está Jean Robert. Se ainda vive no Brasil, se recuperou a fala, se desenvolveu novas formas de se comunicar. Se ficou feliz com a classif**ação do Haiti para a Copa, se torceu, se se resignou com a eliminação.

21/06/2026

A equipe do Manual do Mundo construiu a maior torre de palitos de madeira do mundo. E, nesse vídeo, ele explica por que é importante que a torre seja medida de pé, em vez de deitada.

E a gente pode fazer uma correlação importante com a Endocrinologia Pediátrica:

Qual a diferença de se medir uma criança deitada ou de pé?

Acompanhe aqui a explicação.

Photos from Dr. Flavio Moutinho's post 27/05/2026

Hormônios transformam.

Sob o ponto de vista fisiológico.
Sob o ponto de vista terapêutico.
E, infelizmente, sob o ponto de vista iatrogênico.

Hormônios não são luxo.
Hormônios não são moda.

Hormônios oferecem qualidade de vida.
E também oferecem riscos.

A diferença entre o cuidado e o risco está no acompanhamento.

No diagnóstico preciso, seguindo protocolos bem estabelecidos.
Na dose individualizada, calculada e ajustada de acordo com os dados clínicos.
Nos exames periódicos, para monitorização clínica e laboratorial dos efeitos desejados e efeitos colaterais.

15/05/2026

FORA DA CAIXA

Pense fora da caixa, dizem coaches por aí e por aqui.
Mas o problema de pensar fora da caixa é pensar tão fora da caixa que "o gato está vivo ou morto?" e na verdade ele está longe da caixa, curtindo uma praia na Grécia ou uma nevasca na Sibéria.

O ano era 2005, e eu estava em Aracaju para o Congresso Brasileiro de Atualização em Endocrinologia e Metabologia, onde (já dando spoiler) eu seria aprovado na prova para obtenção do Título de Especialista em Endocrinologia e Metabologia (TEEM).

Fiquei muito impressionado com Aracaju. Em especial, achei brilhante, quase antropofágica, a campanha de marketing, espalhada por todos os cantos, a ideia genial de transformar o nome da cidade em verbo reflexivo, sugerindo identif**ação do humano com o urbano.

Em todo lugar se lia:
ARACAJU-SE.

Eu já tinha voltado para casa quando caí na real: não era nada daquilo! Era só o nome da capital, seguido da sigla do estado.

Às vezes a imaginação produz sentidos mais interessantes do que a realidade.

12/05/2026

.

Aos 10 anos de idade, com baixa estatura, em uso de hormônio de crescimento, toda consulta desse meu pacientinho é um barato.

Dessa vez ele me ensinou Física.

- Sabia que a maçã não caiu na cabeça do Newton? Isso é história que contam pra facilitar que as pessoas entendam. Na verdade, ele era tão inteligente, e tinha a cabeça tão grande, que a maçã caiu e começou a orbitar em torno dele.

10/05/2026

QUERO CHUVA!

Hora do almoço, ligação da escola.
(quem já não tremeu com esse início?)

- A gente está com um problema com o Flavio...

Com o Flavio?, pensou a mãe, que estranho... Flavio nunca deu problema pra comer, prova de tudo, come de tudo... O que será que houve?

- Ele está na mesa do almoço, chorando, dizendo que quer chuva. E ninguém está conseguindo ajudar.

Flavio comia bastante variedade de legumes, verduras, quase tudo. Mas o que as pessoas da escola não sabiam era que o prato do Flavio contava uma história. Mais do que alimentos, o prato era um quadro que precisava fazer sentido.

Naquele dia, o arroz podia ser a areia da praia, o feijão a água do mar, o bife podia representar pedras, a cenoura, a beterraba, o brócolis... cada um era um conceito em uma cena que dali a pouco seria consumida, digerida, metabolizada e se tornaria parte de mim.

E estava faltando a chuva.

Não sei dizer porque a cena daquele dia, daquela refeição, precisava ter chuva.
Mas precisava.
E não tinha.

- Faz o seguinte - orientou a mãe - vocês têm cebola crua?
- Sim.
- Pode ralar um pedaço da cebola por cima do prato?

Choveu.
O quebra-cabeça se completou.
Fez sentido.

E então eu pude almoçar.

***

Essa refeição na escola, ocorrida talvez aos 4 ou 5 anos de idade, mostra como alguns conceitos desenvolvidos em "Metabologia - Poética da Transmutação" fazem parte de mim desde sempre.

Assim como em Um velho baú de brinquedos, eu preciso juntar as partes de um quebra-cabeça para encontrar o sentido;
assim como em Leitor de poesia, preciso processar o sentido para fazer parte de mim;
e diferente de em "Conversa de jardim", aqui eu encontro uma figura adulta, minha mãe, que acolhe, em vez de destruir, a linguagem simbólica infantil.

05/05/2026

Repara bem essa obra.
Eu vou te explicar por que a dosagem de GH no exame de sangue "geralzão" não faz sentido na maioria das condições clínicas.

Tenho certeza que você vai entender.
Me acompanha.

O GH é produzido pela hipófise (glândula localizada abaixo do cérebro, atrás do nariz), e liberada na circulação em pulsos.
Na maior parte do dia, o GH é bem baixinho, quase zero, e de repente dá um salto e (pelo menos) passa de 5 ng/dL.

O GH é o supervisor da obra. Aquele supervisor que de vez em quando dá uma passada na obra para ver como está.

O GH estimula o fígado a liberar IGF-1. O GH, hormônio de crescimento, f**a com a fama, mas quem sustenta a obra no dia a dia é o IGF-1.
O IGF-1 são os operários.

Quando você passa em frente à obra, qual a probabilidade de encontrar o supervisor? Baixa, né... ele só vai lá rapidinho e some. Quem você vai ver, dia e noite, chova ou faça sol, são os operários.

E se eu quiser encontrar o supervisor?, o que, desfazendo a metáfora, pode ser traduzido por: e se eu quiser dosar o GH?

Bom... eu preciso marcar um encontro.
Eu preciso dizer para ele: eu vou estar lá às tantas horas e quero que você também esteja.
Esse é o teste de estímulo de GH, em que o paciente usa uma medicação que provoca a ocorrência de um pico de GH.

E é assim que a gente confirma se a obra tem ou não um supervisor.

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