Dra. Beatriz Raz
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Em uma entrevista, Gusttavo Lima contou que decidiu abandonar o cigarro depois de ouvir do filho: “Pai, para de fumar. Quem vai cuidar de mim?”
Ele relatou que fumou cigarro por muitos anos e depois passou a fumar palheiro, até iniciar o processo para deixar o hábito.
E quando falamos em tabagismo, a preocupação vai muito além dos pulmões.
Na voz: a fumaça do cigarro irrita as pregas vocais, favorece processos inflamatórios e pode provocar alterações na qualidade vocal.
O tabagismo também está associado a doenças da laringe, incluindo o câncer.
No cérebro: o tabagismo prejudica os vasos sanguíneos, reduz a oxigenação adequada do cérebro e favorece processos de estresse oxidativo e inflamação, que podem comprometer a saúde cerebral e neuronal.
E a deglutição? O cigarro não é, isoladamente, uma causa direta de disfagia. Porém, o tabagismo aumenta o risco de doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, como o AVC, que pode levar a alterações na deglutição.
Cuidar da saúde não é cuidar apenas de um órgão. É preservar funções que nos permitem falar, pensar, lembrar, comer, engolir e nos relacionar com o mundo.
E, como mostra o relato de Gusttavo, às vezes uma mudança começa com uma frase simples — mas pode representar uma grande escolha pela própria saúde.
No iHeartRadio Music Awards de 2023, Kelly Clarkson e P!nk dividiram o palco em uma apresentação de “Just Give Me a Reason” que mostra muito mais do que talento musical.
As duas têm vozes marcantes, mas com características bastante diferentes.
Kelly Clarkson apresenta um timbre mais encorpado e brilhante, com grande facilidade para transitar entre diferentes regiões da voz e produzir notas de alta intensidade. Já P!nk tem uma sonoridade mais áspera e uma assinatura vocal muito particular, que faz com que sua voz seja reconhecida quase imediatamente.
Mas existe algo importante em comum: as duas produzem muita intensidade sem que isso signifique simplesmente colocar mais força na voz.
A potência vocal depende de uma coordenação precisa entre respiração, pressão do ar, musculatura laríngea, vibração das pregas vocais e ajustes do trato vocal. Quando esses mecanismos trabalham de forma eficiente, é possível produzir uma voz intensa e projetada sem transformar o canto em um exercício de “empurrar” a voz.
E o cérebro está no comando dessa orquestra. Durante o canto, ele integra informações auditivas, motoras, linguísticas e emocionais, permitindo que a cantora monitore a própria voz e faça ajustes em tempo real.
Na Fonoaudiologia da Voz, não olhamos apenas para “se a pessoa canta bem”. Avaliamos como essa voz está sendo produzida, quais recursos estão sendo utilizados e como preservar sua saúde e eficiência, especialmente diante de uma rotina de alta demanda vocal.
O objetivo não é transformar todas as vozes em uma mesma voz, mas potencializar aquilo que torna cada uma única, com segurança e eficiência.
Kelly e P!nk mostram isso muito bem: timbres diferentes, estilos diferentes, mas coordenação, controle e expressividade.
Porque uma voz potente não é aquela que simplesmente faz mais força. É aquela que sabe usar sua potência!
Aos 13 anos, Lauryn Hill subiu ao palco do Apollo Theater e foi recebida com vaias. Mesmo assim, continuou cantando até o fim.
Décadas depois, aquela menina se tornaria uma das vozes mais marcantes da música.
E essa história também nos lembra de algo que a Fonoaudiologia estuda: a voz não acontece apenas na garganta.
Para cantar, o cérebro precisa coordenar respiração, pregas vocais, articulação, audição, memória, linguagem, ritmo e emoção.
É um trabalho extremamente sofisticado do sistema nervoso.
Enquanto cantamos, também ouvimos nossa própria voz e usamos esse retorno auditivo para ajustar a produção vocal em tempo real. Assim, conseguimos modificar intensidade, frequência, ritmo e qualidade da voz.
Em situações de pressão, medo ou ansiedade, toda essa engrenagem pode ser desafiada. A respiração pode mudar, a musculatura pode ficar mais tensa e a própria produção vocal pode sofrer alterações.
Quando falamos de voz, estamos falando de muito mais do que pregas vocais: estamos falando de uma função que envolve cérebro, corpo e comunicação.
Na Fonoaudiologia, compreender essa relação é fundamental para cuidar da voz e da comunicação — especialmente quando ela é uma ferramenta essencial de trabalho e expressão.
No palco, Lauryn Hill precisou continuar usando essa complexa engrenagem mesmo diante das vaias.
E aquela voz que um dia foi vaiada acabou conquistando milhões de pessoas.
Porque voz não é apenas som. É cérebro, corpo, emoção e comunicação.
24/08/2026
A afasia é uma alteração da linguagem que pode acontecer após um AVC, traumatismo craniano, tumores ou outras condições neurológicas. Ela pode afetar a capacidade de falar, compreender, nomear, ler ou escrever — e não significa perda de inteligência.
Na reabilitação, trabalhar a linguagem não é simplesmente “fazer o paciente falar”. É estimular redes cerebrais complexas envolvidas na comunicação, considerando as necessidades e a realidade de cada pessoa.
Por isso, a escolha dos estímulos faz diferença.
Imagens reais e funcionais podem aproximar a terapia das situações do cotidiano. Diferentemente de figuras muito esquemáticas, fotografias trazem pistas visuais, semânticas e emocionais que podem favorecer o reconhecimento, a associação, a memória, a evocação lexical e o acesso às palavras.
É nesse contexto que a Fonoaudiologia tem um papel fundamental. A terapia busca trabalhar habilidades específicas da linguagem, mas também favorecer sua utilização de maneira funcional, para que aquilo que é exercitado durante a sessão possa ser levado para a vida real.
O Afasia Pro 1 foi desenvolvido com esse propósito: utilizar imagens organizadas e próximas da realidade para estimular linguagem de forma prática, funcional e terapêutica.
Porque, na afasia, reabilitar a linguagem também é reconstruir caminhos para se comunicar, participar, expressar desejos e continuar fazendo parte da própria vida.
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Talvez a gente subestime o quanto uma coisa pequena pode atravessar a vida de outra pessoa.
Um comentário atravessado. Uma resposta impaciente. Um silêncio. Um gesto de carinho. Uma escuta atenta. Nada disso termina exatamente no instante em que acontece.
É isso que a cena de Je suis donc tu es consegue representar de uma maneira tão bonita: aquilo que fazemos circular entre nós pode ganhar um peso que nem sempre percebemos.
Quando alguém está machucado, cansado ou cheio de coisas que ainda não conseguiu elaborar, pode acabar reagindo a partir desse lugar. E quem recebe aquela reação também pode carregá-la para a próxima relação. Sem intenção, sem perceber, a gente pode transformar um momento ruim em uma sequência de outros momentos ruins.
Mas existe uma escolha no meio desse caminho.
Podemos parar.
Podemos olhar para aquilo que recebemos e decidir que não precisamos devolver na mesma moeda.
Isso também tem muito a ver com cuidado. Com tratamento. Com encontrar espaços onde seja possível compreender o que sentimos, reorganizar aquilo que ficou bagunçado e recuperar formas de estar em relação com o outro.
Na Fonoaudiologia, isso aparece de muitas maneiras. Às vezes, está em ajudar alguém a recuperar a fala. Outras vezes, em encontrar novamente uma forma de se comunicar depois de uma doença, expressar uma necessidade, participar de uma conversa ou simplesmente sentir que sua voz ainda tem lugar no mundo.
Porque comunicação também é vínculo.
E, no fim, talvez as nossas relações sejam feitas dessas pequenas coisas que vamos deixando pelo caminho.
Se podemos espalhar alguma coisa, que seja cuidado.
Que seja gentileza.
Que seja uma palavra que alivie, em vez de uma que pese.
Afinal, a gente nunca sabe até onde uma pequena onda pode chegar.
Bom domingo! Linda semana!
O influenciador e piloto Lito Sousa, do canal Aviões e Músicas, recebeu o diagnóstico de Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma doença priônica rara, neurodegenerativa e de evolução rápida. Segundo sua esposa, Mila, ele perdeu parte da capacidade motora nas últimas semanas, mas permanece lúcido.
Mas o que acontece no cérebro?
Na DCJ, uma proteína chamada príon sofre uma alteração anormal e passa a induzir outras proteínas a se dobrarem de maneira inadequada. Esse processo provoca lesão progressiva do tecido cerebral, comprometendo diferentes redes neurológicas.
A doença pode começar com alterações cognitivas e perda de memória mas também pode provocar dificuldade para caminhar, alterações visuais, movimentos involuntários, rigidez, alterações de coordenação e, com a progressão, perda de autonomia e de consciência. A evolução costuma ser muito rápida.
Existem diferentes formas de DCJ: esporádica, a mais comum e sem causa identificável; hereditária, relacionada a alterações genéticas; iatrogênica, associada a exposições médicas muito específicas; e a variante da DCJ (vDCJ).
E aqui existe uma confusão importante: DCJ não é a “doença da vaca louca”. A encefalopatia espongiforme bovina (EEB) ocorre em bovinos. A exposição a bovinos contaminados está relacionada à variante da DCJ em humanos — uma forma diferente da DCJ clássica. No Brasil, nunca houve caso humano confirmado de vDCJ.
Na Fonoaudiologia, acompanhar uma doença como essa significa olhar para aquilo que o cérebro deixa de conseguir organizar: fala, linguagem, comunicação, cognição, controle motor oral e deglutição.
À medida que as redes neurológicas são comprometidas, a comunicação pode se tornar cada vez mais difícil e a deglutição também pode ser afetada. O trabalho fonoaudiológico é, então, individualizado e voltado para preservar possibilidades de comunicação, segurança e qualidade de vida, além de orientar familiares e cuidadores.
A DCJ não possui, atualmente, tratamento capaz de interromper ou reverter sua progressão. Os cuidados são principalmente de suporte e conforto.
Toda nossa força ao Lito e à su
A Libras — Língua Brasileira de Sinais — é uma língua visual-motora, com estrutura gramatical própria, utilizada pelas comunidades surdas brasileiras. Ela não é apenas um conjunto de gestos nem uma versão sinalizada do português.
Suas raízes são muito anteriores ao reconhecimento oficial. Em 2002, a Libras foi reconhecida legalmente como meio de comunicação e expressão no Brasil, fortalecendo seu espaço e sua difusão.
E é nesse contexto que uma história da televisão brasileira merece ser lembrada.
Em 1988, o Abecedário da Xuxa levou o alfabeto manual a milhões de crianças. A iniciativa ajudou a tornar a comunicação por sinais mais conhecida e despertou o interesse de muitas crianças pela língua de sinais. Há relatos, inclusive, de pessoas surdas que aprenderam o alfabeto manual por meio do programa e que, anos depois, reconheceram essa experiência como uma porta de entrada para a comunicação em Libras.
Na recente homenagem recebida pela Xuxa, a Feneis destacou justamente esse impacto: crianças que não se viam representadas na televisão passaram a ter contato com uma forma de comunicação que fazia parte da realidade da comunidade surda.
Isso não significa que a inclusão esteja resolvida. Ainda existem barreiras de comunicação, acesso e participação social para muitas pessoas surdas.
E a Fonoaudiologia também faz parte dessa conversa. O trabalho fonoaudiológico pode contribuir para diferentes aspectos da comunicação, sempre respeitando a língua, a identidade e as escolhas comunicativas de cada pessoa surda.
Libras não é algo que precisa ser “corrigido”: é uma língua.
Quando uma língua ganha espaço, visibilidade e respeito, mais pessoas podem se sentir pertencentes.
Talvez esse seja um dos maiores legados de iniciativas como essa: mostrar que comunicação também é uma forma de participação.
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